Allen Gomes: “Há sexo em toda a parte. Onde é que não o encontra?”

Com 75 anos, continua a dar consultas três vezes por semana no seu gabinete, em Coimbra. Diz que trabalhar o ajuda a viver, que quis ser médico como o pai, mas a psiquiatria e a sexologia atraíram-no mais. Abriu o consultório em 1978 e não pensa parar tão cedo.

Não havia doentes com 50 anos a falar de problemas de sexo. O tema deixava todos – pacientes e médicos – desconfortáveis. Mas foi neste ambiente que Francisco Allen Gomes escolheu trabalhar em sexologia, uma área nova nos anos 70. Ainda nem tinha acontecido o 25 de Abril, e já o psiquiatra explicava o que era sexo oral. Allen Gomes tem o dom de transformar assuntos complexos em conversas transparentes. O sexo, como diz o psiquiatra que nasceu em Mértola e que aos 9 anos foi viver para um colégio interno no Estoril (só via a família nas férias e passava dois dias a viajar para chegar ao Alentejo), somos nós. Com 40 anos de carreira, está longe de parar. “Gosto de trabalhar, preciso de trabalhar, acho que trabalhar me ajuda a viver, a pensar, a manter-me útil, e a manter a minha identidade social, a de médico.”

Há 30 anos, foi publicado o primeiro livro português sobre sexologia clínica. Como foi?
Teve o impacto de ser o primeiro, com 50 autores portugueses. Era um livro científico, clínico, excepto a segunda parte, que era mais cultural. A sexologia procurou sempre estar ligada aos médicos e ao mesmo tempo ter ligações à cultura.

Porquê?
Porque a sexualidade não se esgota na clínica. O que vimos na clínica é a sexualidade das pessoas que, por qualquer motivo, têm um sofrimento. Depois há toda a riqueza da sexualidade em termos sociais e socioculturais. O sexo está em toda a parte.

Em que sentido?
No real e figurado. Onde é que não encontra sexo? Abre um jornal, uma revista, liga a televisão e não passam cinco minutos sem uma imagem relacionada com sexo. Nós somos o sexo e o sexo somos nós. Somos animais sexuais.

Mudou muita coisa nos hábitos dos portugueses desde que publicaram Sexologia em Portugal?
Houve uma grande descompressão. A sexualidade estava intimamente ligada à procriação, o que saísse disso era ilegal perante a lei, anormal perante a medicina, pecado perante a religião, e estatisticamente pouco significativo. Claro que mais perto do 25 de Abril já existiam pequenas mudanças, como a pílula contraceptiva, mas só podia ser prescrita para estimular a reprodução. Durante três meses punha-se o ovário em sossego e depois retirava-se para facilitar a gravidez.

Em 1987, escreveu sobre a sexualidade na segunda metade da vida. É uma área que está diferente?
Sim, neste momento há muita investigação, por causa do envelhecimento da população. Quando comecei, a média de idades de quem ia às consultas de sexologia era de 35 anos. Uma pessoa com 50 era raro. É muito interessante porque temos de pensar que tipo de sexualidade as pessoas mais velhas vão ter. Não pode haver uma expressão sexual igual aos 40 anos, centrada nos genitais. É que há uma fase na vida do homem em que o charme dele ao jantar, com aqueles cabelos brancos, não corresponde à execução ao deitar.

Uma das grandes diferenças na sexualidade foi o Viagra?
Fez muito de bom e de mau. De mau é simples: centralizou a sexualidade masculina ainda mais nos genitais. Havia indivíduos que tinham um problema físico, aí tudo bem, mas indivíduos com problemas claramente psicológicos estavam a contorná-los. O que trouxe de positivo foi que a medicina tradicional entrou na sexologia. Há um aumento claro das dificuldades erécteis com a idade, daí o interesse da indústria. Depois houve um dado muito interessante: então e o viagra feminino?

E então?
Não é que a indústria não tente, só se fosse parva. A primeira coisa que fizeram foi usar o Viagra nas mulheres. Houve ensaios, e em termos de lubrificação vaginal actuou imenso, mas no resto não. Até que apareceu a Flibanserina e a história da sua aprovação é uma história triste.

Porquê?
É um antidepressivo e é investigado assim, mas viu-se que não tinha grande viabilidade como tal. Só que nos ensaios apareceram algumas mulheres que tinham um aumento de desejo sexual. A partir daí começou a ser investigado, mas foi chumbado pela FDA. Entre os benefícios e os efeitos secundários [sonolência, náuseas e tonturas] não se justificava.

Como assim?
A coisa era contada assim, não anda muito longe da verdade: as mulheres que tomaram passaram de dois eventos sexuais por mês para três. Entretanto, houve outro laboratório que o comprou e fez uma campanha brutal com as organizações femininas, pressão na FDA; então aprovaram. Mas na prática…

Não é falada?
A sexualidade masculina tem três problemas: erecção, erecção, erecção; a da mulher: falta de desejo, falta de desejo, falta de desejo.

A sexualidade da mulher é mais complexa do que a do homem?
Penso que sim. A sexualidade masculina é muito concentrada nos genitais. Quando há um problema, eles sabem: não há erecção. Ao passo que uma mulher pode fingir um orgasmo sem grande problema. E isso é a coisa mais normal deste mundo. As mulheres que fingem têm uma sexualidade excelente. Simplesmente há um dia em que iam para a relação e muito naturalmente aparece um pensamento, um barulho, qualquer coisa. Já sabiam que não iam, mas continuam para ele não ficar a pensar que há um problema. Mas ninguém finge a vida inteira. E foi preciso chegar ao ano de 1998 para uma revista científica descrever minuciosamente a anatomia do clitóris e as suas relações, ou seja, com o que é que ela contacta. Está ali uma bomba.

Uma das grandes mudanças é o papel da mulher na sexualidade?
Sim. O que se vê nos estudos entre os sexos é que as diferenças são cada vez mais discretas. Homens e mulheres vêem o sexo da mesma maneira. Olhe, num programa perguntavam-me como é que se sente o homem com a perda de poder no sexo? Eu disse que uma grande parte deles sente um grande alívio. Uma das coisas de que os homens se queixam é que as mulheres não têm iniciativa sexual. O contraponto de uma sexualidade assimétrica é o homem ter de provocar, ter de solicitar, ter de pedir, ter de excitar e ter de dar prazer, senão é um desgraçado. Por conseguinte, é bom que os outros tenham iniciativa. Além disso, a vida de um casal é negociada todos os dias.

Qual é o melhor conselho para uma vida sexual saudável?
Duas coisas: um espaço onde possam comunicar e fazer crescer a sua relação e ao mesmo tempo terem um espaço privado. Não se pode entender que uma boa relação implica uma fusão. E ainda que tenham sorte, ou seja, ter um bom emprego, uma boa habitação e alguém que os alivie dos cuidados dos filhos para terem tempo um para o outro. É que o amor e a paixão vão ser submetidos ao massacre do quotidiano horrível.

Quais são os maiores mitos da sexualidade?
Quando comecei, iam as pessoas que queriam, mas não podiam. E a partir de uma certa altura, começam a aparecer pessoas que podiam, mas não queriam. Por outro lado, éramos muito optimistas, muito a favor de sexo como uma medida de saúde e a mesma coisa em relação aos idosos. Passámos de uma altura em que não deviam fazer para o têm de fazer. Sem chegar à conclusão de que ninguém tem de fazer sexo. Esse é talvez o maior mito. Há pessoas que vivem bem sem sexo. Casais que não têm e não estão interessados nisso. Tive casos em que nenhum procura sexo e não é um problema. Há mais um grupo, os assexuados.

Não é um problema?
Não, mesmo. Hoje existem dezenas e dezenas de identidades sexuais, mais de 50 garantidamente. E este núcleo diz: não tenho necessidade, não sinto atracção. Há até quem fale da pedofilia como uma orientação sexual.

O que acha disso?
Não é uma orientação. Mas percebo que algumas pessoas achem isso.

Porquê?
Por haver pessoas que desde sempre se sentem atraídas por crianças e portanto podem ser capazes de ter relações com adultos, mas o que as atrai são as crianças. A figura do pedófilo no sentido restritivo, de doença, e não o abusador. As taxas de êxito terapêutico são boas, as de reincidência não ultrapassam os 15% – mas o que indicam os especialistas é que o controlo do comportamento adquiriu-se completamente, mas a atracção manteve-se. Daí algumas pessoas falarem em orientação. É complexo.

Porque escolheu ser médico? Acha que foi por influência do seu pai?
Acho que sim. O meu pai era uma pessoa fabulosa, tinha um sentido ético da profissão impressionante, numa altura em que o Alentejo vivia uma miséria. Era capaz de acordar três vezes durante a noite e fazer quilómetros para ajudar as pessoas nos montes. Cinema era uma coisa rara e ele adorava. Estava a ver um filme e chegava alguém a segredar: tinha vindo um homem do monte chamar o médico. Ele praguejava, chateado, a minha mãe dizia-lhe: “Porque não esperas, vês tudo e depois vais.” Ele não conseguia ficar.

Como é que da medicina foi para a sexologia?
Sou psiquiatra e isso representa a maioria da minha actividade. A sexologia nunca ultrapassou os 20%.
O que significa que as pessoas são sexualmente mais saudáveis do que se julga. Tudo começou quando passei numa livraria em Bordéus – estava de férias sozinho na Europa – em 1965, e comprei uma pequena revista, a Planete. Lá dentro havia uma fotografia de dois investigadores, Masters e Johnson, que estavam prestes a publicar um relatório sobre sexualidade. Mais tarde, em 1969, sou chamado para a tropa em Abril – já me tinha casado em Janeiro – e fui com a minha mulher para Chaves, formar batalhão. Lembro-me de ir na Rua de Santo António e de ver o livro de Masters e Johnson. Pensei: conheço estes dois. Comecei a ler aquilo: “Eh pá, isto não tem nada a ver com o que sei.” A ruptura com os comportamentos e o que eram os orgasmos vaginais… O que sabia era só do Freud. Levei o livro para África e discuti-o com a minha mulher, que o achou profundamente elementar.

Quando estava em África dava para discutir sexologia e ter a sua mulher por perto?
Não tive uma guerra pesada, como o meu colega Lobo Antunes. Estava em Moçambique e a medicina de guerra era elementar. O que fazia era aguentar os feridos até serem retirados de avião. Tivemos dois mortos, vários homens sem pernas, mas não éramos bombardeados. Também tratávamos a população local. Como tinha uma enfermeira civil, resolvemos fazer partos. O primeiro que fiz foi a uma prostituta. Acho que fiz uns 13. Mas quem os fazia mesmo era a enfermeira. Eu não tinha grande jeito.

É quando regressa da guerra que decide ir para sexologia?
Regresso em 1972, fui falar com um grande amigo, psiquiatra, e disse- -lhe: “Estou a tirar a especialidade. Que área devo fazer?” E ele: “Há aí uma área que quando nos falam nisso nos consultórios temos vontade de sair porta fora, a sexualidade. E há aqui um livro, vê bem isso.” Era o segundo volume de Masters e Johnson, de 1970. Estava lá o protocolo terapêutico. E é com a Maria Fernanda Mendes [psiquiatra e terapeuta sexual] que o aplico.

Como foi?
Era um protocolo de terapia de casal intensiva, com entrevista diária com os terapeutas e tratamento de três semanas. Era de uma simplicidade… Primeiro era proibida qualquer tentativa de penetração.

Porquê?
Porque a ansiedade estava toda localizada ali. Ele com medo de falhar, ela porque não atingia o orgasmo. O sexo resumia-se a tentativas sistemáticas e falhadas. A estrutura terapêutica baseava-se em retirar a ansiedade do contacto e em começar com um tipo de contacto físico não focado no sexo. Primeiro carícias, sem objectivo de estimulação sexual, depois massagens, e em seguida estimulação das zonas genitais. Por fim, a penetração, mas sem objectivo de atingir o orgasmo. Era uma forma progressiva de se irem erotizando, tirando a ansiedade.

Não era difícil falar desse tipo de temas na altura?
Falava sempre de acordo com as convicções do casal. Um dia chega um casal à consulta no hospital [de Coimbra] de cabeça baixa e ele entrega-me um papel: “Há duas noites estávamos a fazer os exercícios e eu comecei a beijar a minha esposa, e a certa altura, fui beijando, beijando, até que a beijei nos órgãos, lá em baixo. Depois não era capaz de parar, ela também não. E ela teve um orgasmo pela primeira vez. “Oh, sôtor, foi assim tão mau o que fizemos? Que vergonha.” Diziam coisas destas. Depois havia outras ideias sobre a consulta. A minha mulher, que estava na altura a tirar o curso de Psicologia, tinha colegas que lhe perguntavam: “Olha lá, os casais fazem amor diante do teu homem?”

Quais eram as queixas mais comuns nas consultas de sexologia?
As de incapacidade. Não conseguir ter uma erecção continua a ser a queixa mais frequente. Nas mulheres, durante muitos anos, eram as dificuldades em terem um orgasmo ou em se excitarem. No início, não valorizava muito a falta de desejo, partia do princípio que se uma pessoa não tinha prazer não tinha orgasmo, claro. Mas havia ali qualquer coisa muito interessante, porque os sinais físicos da excitação, a lubrificação da vagina, existiam. Mas apesar disso, não tinham prazer. Ou seja, o grande indicador da excitação não é esse, mas sim a cabeça.

A educação é muito importante no desenvolvimento da sexualidade. Como é crescer numa época de repressão?
Eu ainda sou do tempo em que havia prostituição oficial, com polícia à porta. A maioria dos rapazes era assim que começava. Passeavam com a namorada, iam levá-la a casa e depois iam para as casas de meninas. Existia uma perversão social: uma rapariga que se envolvesse antes do casamento estava “estragada”. Uma coisa era a rapariga para ser nossa esposa e outra para dar uma queca. Era muito difícil sintetizar tudo numa mulher. A conquista da minha geração foi essa: da sua mulher já ser um objecto erótico e não ter de casar com uma mulher virgem.

Isso acabou, mas concorda com a ideia que defendeu no passado, de que “a falta de desejo sexual pode ser uma metáfora de uma sociedade que banalizou o sexo”?
Hoje sou menos radical. Porque há muita diversidade. Mas a componente económica do sexo é grande, a profusão de imagens pode levar a uma banalização. Mas também estamos numa época em que as pessoas se podem manifestar e recusar a serem expostas a isso. Se pegarmos num prédio de 10 andares, provavelmente a maior parte dessas pessoas arrumar-se-ão em três ou quatro grupos políticos. A nível da vivência da sexualidade, o indivíduo do terceiro direito tem uma; o do esquerdo, outra. Antigamente, ou eram poligâmicos ou monogâmicos. Hoje, é muito mais complexo. Há uma série de variantes, relações abertas, poliamor, monogamias seriadas – não vivem com a mesma pessoa toda a vida, mas quando têm uma pessoa ficam com ela. Tudo explodiu, saiu-se de uma estrutura categorial para uma coisa pluridimensional. 

Artigo publicado originalmente na edição 713 da SÁBADO, de 28 de Dezembro de 2017

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